Entrevista Neto Lobo

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Primeiro lugar no estilo New Traditional da Convenção de Tattoo Incorpore Art e há mais de cinco anos na cena de tatuagem de Curitiba, Neto Lobo nos encountro na Tattoo Week para nos contar desde como começou a se involver com tatuagem, até suas expectativas para o mercado brasileiro em alguns anos no futuro e muito mais.

Mundo Tattoo: Qual a sua lembrança da primeira vez que você viu uma tatuagem? Qual foi sua impressão?

Neto Lobo: Eu venho de uma família católica e, então, até meus 17 anos eu tinha uma visão da tatuagem bem marginalizada. Porque, realmente, a história do Brasil provou ser isso antigamente, então acabou que eu aprendi através da minha família a ter uma visão meio ruim da tattoo. Isso só começou a mudar depois, quando eu comecei a me envolver, quando comecei a ver que existiam artistas. No início foi mais complicado mesmo ter essa percepção devido ao aprendizado que tive dentro de casa.

MT: Como é o mercado de tatuagem em Curitiba?

NL: Eu sinto que Curitiba está crescendo muito forte. Eu costumo falar que faço parte de uma geração que é de tatuadores novos, mas já existe uma nova geração que está chegando, que é de gente que está tatuando há um, dois anos mas já está mandando muito. Talvez seja por essa abertura da tattoo ter se tornado mais artística, então os artistas conseguem se soltar mais, mostrar a produção deles e, putz, é isso o que eu acho irado na tattoo, cada um desenvolver uma linguagem e poder mostrar o seu trabalho na pele de alguém. Conheço muitos artistas lá (em Curitiba) que tatuam há pouco tempo – e alguns há muito tempo também – que estão mandando muito bem, e a tendência é só crescer, cada vez mais.

MT: Existe algum estilo de tatuagem que predomina em Curitiba?

NL: Acho que não, acho que Curitiba é bem eclético. Tem ótimos artistas a nível nacional e até arrisco dizer mundialmente. Tem gente que trabalha muito bem com aquarela, tem gente fora do meu trabalho que trabalha com New Trad – que é de Curitiba também e que eu gosto muito – old school, trabalhos mais geométricos, trabalhos mais artísticos. Tem de tudo lá. Acho que Curitiba não fica devendo para nenhum estilo de tattoo.

MT: Você acredita que São Paulo influencia Curitiba por conta da proximidade das duas cidades?

NL: Com certeza. Eu acho que, na verdade, as influencias que eu tenho muito são: São Paulo, Belo Horizonte e Brasília. São locais onde eu vejo que tem artistas que estão se destacando.

MT: Você fez faculdade de Design Gráfico e trabalhou como ilustrador; como isso te ajudou no seu desenvolvimento como tatuador?

NL: Logo que eu saí do colégio eu já entrei na faculdade de Design Gráfico e no primeiro ano consegui trabalho em uma empresa como ilustrador. Só que eu trabalhei durante três anos e meio, durante a faculdade, com ilustração. e abandonei na metade do último semestre do TCC por causa da tatuagem, porque eu conheci a tatuagem nessa época. Com certeza muita coisa que aprendi na faculdade e como ilustrador eu tenho influencia até hoje. Eu larguei tudo isso justamente pelo mercado de trabalho. Eu não conseguia lidar muito bem com hierarquia, eu gostava muito de trabalhar por mim mesmo. Logo que eu saí da faculdade de Design Gráfico, eu já tinha mais ou menos tudo planejado. Agora, já estou no último ano da Belas Artes, onde curso Gravuras, e com certeza acredito que ambas as faculdades influenciaram muito o meu trabalho para saber onde buscar referências no mundo da arte e não ficar preso só ao mundo da tattoo. Se você olhar apenas trabalhos de tatuadores, você vai ficar limitado e acabar sendo o genérico de alguém, sendo que isso é algo que eu não quero. Para você ser alguém, eu acho que você tem que buscar referência em outras coisas.

MT: Você acha que falta mais instrução em nível de estudo para os tatuadores?

NL: Depende, falar sobre um tatuador que estuda ou não, é o mesmo que falar sobre um engenheiro que estuda ou não. Eu conheço vários tatuadores – aqui do Máfia mesmo, somos nove tatuadores e todos estudam diariamente. Semanalmente nos encontramos, sempre um ajuda o outro a desenvolver o trabalho; então conheço muito tatuador talentoso e todos que considero bons tatuadores, todos estudam muito, ralam muito para chegar onde eles estão.

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MT: Você pensa muito nas etapas da criação, desde a ideia até chegar no trabalho final. Como funciona esse processo?

NL: Hoje eu acho que, desde que comecei a tatuar, desde que comecei a lidar com desenho, estou em uma fase muito boa, especificamente na
tattoo. Eu desenvolvo a composição do desenho, pensando, lógico, no local que a pessoa quer fazer, mas não pinto nada do desenho antes. Eu pinto na hora, na tattoo. Eu gosto de ter o primeiro impacto, me sentir mais livre criando. Quando eu preparava o desenho antes, eu já me sentia preso, aquilo já não me fazia bem, então hoje eu sou bem mais livre, trabalhando na hora mesmo, desenvolvendo. Às vezes eu desenvolvo o desenho antes mesmo do cliente chegar e tudo acontece muito rápido, e é isso o que me surpreende em alguns resultados.

MT: Você está trabalhando no Tattooa, que atualmente está passando por reformas, e as fotos do estúdio refletem um estilo de decoração que foge do comum – você acha que o estúdio influencia no estilo dos tatuadores que trabalham nele?

NL: Eu acho que não. Eu acho que são os tatuadores que fazem o estilo do estúdio. O primeiro que trabalhou lá, o André Boi, depois do Alan Vinícius, daí a Bruna Pereira chegou e eu fui o último. Quando eu cheguei lá, o estúdio já tinha a cara deles e eu só cheguei para somar a alguma coisa que faltava. Eu acho que o reflexo do estúdio é a junção de nós quatro alí, desenvolvimento os trabalhos juntos, sempre estudando também. Muitas vezes o Alan me dá umas ideias que eu nunca pensaria, porque o estilo de tattoo que ele faz ele precisa pesquisar outras coisas, outra linha. Acho que é isso que nos mantém atualizados, que faz com que os trabalhos sempre evoluam.

MT: Sempre existem estilos que entram na moda. Antigamente, era o tribal, hoje em dia é o pontilhismo e a aquarela. O que você acha desses estilos, que aliam técnica e criatividade?

NL: Pontilhismo é uma técnica que não é difícil de aprender, na teoria, mas existem tatuadores que conseguiram se destacar dentro disso, justamente porque cabe um estudo além de simplesmente fazer um ponto na tattoo. Tem gente que consegue criar luz, constraste, de forma absurda com o pontilhismo. Se é moda ou não é, são estilos novos que chegaram que a galera curtiu. Acho que a gente vai descobrir se é moda ou não daqui há um pouquinho, mas acho que chegaram pra ficar.

MT: E é um estilo que você gosta?

NL: Eu gosto, foge um pouco do que eu faço, mas eu gosto muito.

MT: Você trabalha com tatuagem desde 2009. Qual são as mudanças que você percebeu no seu trabalho desde que você começou?

NL: Acho que a mudança que o meu trabalho sofreu desde 2009 até aqui foram as pessoas que passaram pelo meu caminho. Tem algumas pessoas que eu lembro sempre. Tem uma professora minha da Belas (Faculdade de Belas Artes) que toda vez que eu sento para fazer um desenho e que eu vou fazer uma tatuagem, eu lembro das frases que ela falava. Impregnou na minha cabeça e não sai. São pessoas que passaram pela minha vida – algumas passaram e algumas estão até agora – que sempre vieram falando, conversando, me ajudando, e se não fossem elas, o trabalho não tinha se desenvolvido da maneira que se desenvolveu.

MT: Antigamente, as pessoas chegavam no estúdio querendo ver o catálogo de imagens. Hoje em dia, já chegam com alguma referência. Como você vê as pessoas que se tatuagem hoje em relação as que se tatuavam anos atrás?

NL: Os tatuadores ainda tem que preparar muito os clientes, porque hoje em dia existem pessoas que chegam querendo trabalho exclusivo, já tem essa visão de que dá pra desenvolver um trabalho só para elas, explorar o máximo do tatuador, deixando-o mais livre para criar. Só assim que essa pessoa vai conseguir uma tattoo boa. Mas, infelizmente, ainda tem muita gente que está desinformada demais sobre como a tattoo evoluiu até hoje, e acho que cabe aos tatuadores educar um pensamento dentro dessas pessoas, saber vender o trabalho ao invés de só reproduzir uma cópia – acho que esse tipo de coisa não deve existir. Usar como referência é uma coisa, mas copiar é o que vai acabando com a ideia dos clientes quererem algo novo, algo exclusivo para eles.

MT: Como os novos equipamentos para tatuagem melhoraram a qualidade dos trabalhos e ajudaram no aprimoramento dos tatuadores?

NL: Foi algo que mudou totalmente o nível de qualidade da tatuagem, o nível de menor agressão a pele. Para quem está começando, pode ser uma coisa ruim, mas infelizmente eu acredito que 60, 70% de uma boa tattoo depende muito de equipamentos bons e são equipamentos que acabam sendo mais caros. Mas tudo tem um degrau, não precisa já começar com máquinas boas. Tem máquinas boas que tem um preço acessível, que dá para fazer um resultado bom. Quando você chegar a tirar o máximo disso, parte para um material melhor. Acho que assim você vê uma evolução do seu trabalho alí.

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MT: Para finalizar: como você acha que vai estar a tatuagem no Brasil nos próximos anos?

NL: Taí uma pergunta que eu estou curioso para ver também. Eu sou uma pessoa bem otimista. Eu sempre quero estar me atualizando, não quero parar e ficar na mesmice, então pelas pessoas que conheço, pela preparação da clientela que está começando a entender como funciona a tattoo, eu sou bem otimista. Acho que cada vez o mercado vai crescer mais, tem muitos profissionais brasileiros que estão se destacando mundialmente e isso é cada vez melhor para quem está tatuando aqui dentro – ter a possibilidade de ter uma visualização para fora, que com a internet hoje em dia é muito fácil divulgar um trabalho e fazer trampo na gringa. Eu estou curioso para ver, mas sou otimista e acho que vai ser muito bom.

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